Financiar um imóvel ou veículo é uma das maiores decisões financeiras da vida. E dentro dessa decisão existe uma escolha que a maioria passa em branco: qual sistema de amortização usar — SAC ou Price? Em um financiamento de R$ 400.000 em 20 anos, escolher sem simular pode custar mais de R$ 115.000 em juros extras. Este guia explica como cada sistema funciona, mostra os cálculos com números reais e te ajuda a decidir.
O que é amortização e por que ela importa
Cada parcela de financiamento tem duas partes:
- Amortização: a fatia do valor principal que está sendo quitada. Reduz diretamente o saldo devedor.
- Juros: o custo do dinheiro emprestado. Calculado sobre o saldo devedor ainda em aberto.
O sistema de amortização define como essas duas partes se dividem ao longo dos meses. SAC e Price são os dois sistemas dominantes no Brasil — e funcionam de formas radicalmente diferentes.
Sistema SAC: amortização constante, parcelas decrescentes
SAC é a sigla para Sistema de Amortização Constante. A parcela de amortização é sempre a mesma. Como o saldo devedor cai de forma constante, os juros também caem todo mês — e a parcela total é decrescente.
Fórmulas do SAC
- Amortização mensal = Valor financiado ÷ Número de meses
- Juros do mês = Saldo devedor × Taxa mensal
- Parcela = Amortização + Juros do mês
Exemplo — SAC
R$ 400.000 financiados · 240 meses · 0,8% a.m.
| Mês | Saldo devedor | Amortização | Juros | Parcela |
|---|---|---|---|---|
| 1 | R$ 400.000,00 | R$ 1.666,67 | R$ 3.200,00 | R$ 4.866,67 |
| 12 | R$ 381.666,63 | R$ 1.666,67 | R$ 3.053,33 | R$ 4.720,00 |
| 60 | R$ 300.000,00 | R$ 1.666,67 | R$ 2.400,00 | R$ 4.066,67 |
| 120 | R$ 200.000,00 | R$ 1.666,67 | R$ 1.600,00 | R$ 3.266,67 |
| 240 | R$ 1.666,67 | R$ 1.666,67 | R$ 13,33 | R$ 1.680,00 |
Total pago em juros (SAC): R$ 385.600
Total pago no financiamento: R$ 785.600
Sistema Price: amortização crescente, parcelas nominalmente fixas
O Sistema Price — também chamado de Sistema Francês de Amortização — tem parcelas nominalmente fixas. Para que isso seja possível enquanto os juros caem, a amortização precisa crescer todo mês. Nas primeiras parcelas quase tudo vai para juros; nas últimas, a relação se inverte.
Fórmula do Price (PMT)
PMT = PV × [ i × (1+i)ⁿ ] ÷ [ (1+i)ⁿ − 1 ]
Onde: PV = valor financiado · i = taxa mensal · n = número de meses.
Exemplo — Price
Mesma base: R$ 400.000 · 240 meses · 0,8% a.m.
| Mês | Saldo devedor | Amortização | Juros | Parcela |
|---|---|---|---|---|
| 1 | R$ 400.000,00 | R$ 554,40 | R$ 3.200,00 | R$ 3.754,40 |
| 12 | R$ 393.507,60 | R$ 598,84 | R$ 3.155,56 | R$ 3.754,40 |
| 60 | R$ 367.748,00 | R$ 815,55 | R$ 2.941,98 | R$ 3.754,40 |
| 120 | R$ 323.060,00 | R$ 1.166,74 | R$ 2.584,48 | R$ 3.754,40 |
| 240 | R$ 3.724,74 | R$ 3.724,74 | R$ 29,80 | R$ 3.754,40 |
Total pago em juros (Price): R$ 501.056
Total pago no financiamento: R$ 901.056
Atenção — correção monetária (TR / IPCA): os valores acima representam o cenário nominal, sem atualização monetária. Na prática, contratos imobiliários no Brasil são indexados à TR ou ao IPCA: o saldo devedor é atualizado mensalmente pelo indexador antes da aplicação dos juros. As parcelas do Price sobem ao longo do tempo na vida real. As tabelas acima comparam a lógica dos dois sistemas; os valores reais dependem do índice e da taxa do seu contrato.
Comparativo direto: SAC × Price
| SAC | Price | |
|---|---|---|
| Tipo de parcela | Decrescente | Nominalmente fixa |
| 1ª parcela | R$ 4.866,67 (maior) | R$ 3.754,40 (menor) |
| Última parcela | R$ 1.680,00 | R$ 3.754,40 |
| Total de juros | R$ 385.600 | R$ 501.056 |
| Total pago | R$ 785.600 | R$ 901.056 |
| Diferença de juros | R$ 115.456 a menos no SAC | |
| Saldo devedor após 5 anos | R$ 300.000 (−25%) | R$ 367.748 (−8%) |
| Velocidade de amortização | Mais rápida | Mais lenta |
| Exigência de renda inicial | Maior | Menor |
| Previsibilidade nominal | Menor | Maior |
Exemplo com R$ 400.000, 240 meses, 0,8% a.m. nos dois sistemas. Na prática, bancos oferecem taxas distintas para SAC e Price — veja a seção sobre taxas diferenciadas abaixo.
Por que o Price custa mais no total?
A resposta está na velocidade com que o saldo devedor cai. No SAC você amortiza R$ 1.666,67 já na primeira parcela. No Price, a amortização inicial é de apenas R$ 554,40 — menos de um terço. Quanto mais tempo o saldo permanece alto, mais juros incidem sobre ele.
Olhe o saldo após 5 anos: no SAC caiu para R$ 300.000 (25% quitado). No Price ainda está em R$ 367.748 — apenas 8% amortizado após 60 meses de pagamentos regulares.
O argumento do custo de oportunidade: a análise acima compara desembolso total, critério correto para a maioria das pessoas. Existe, porém, um cenário em que o Price pode ser mais vantajoso: se você for um investidor disciplinado que aplica rigorosamente a diferença entre as parcelas (R$ 1.112/mês no 1º mês deste exemplo) em um investimento com retorno líquido superior à taxa do financiamento, o balanço final pode favorecer o Price. Esse cenário exige disciplina constante por 20 anos e uma taxa de retorno real superior ao custo da dívida — condição que poucas pessoas sustentam na prática.
Quando o SAC é a escolha certa
- Renda suficiente para absorver a primeira parcela, maior do que no Price
- Pretende manter o financiamento por longo prazo — a diferença de juros cresce com o tempo
- Quer reduzir o saldo devedor rapidamente, facilitando quitação antecipada com desconto maior
- Renda com tendência de crescimento — parcelas decrescentes liberam capacidade financeira futura
- Financiamento de imóvel para investimento — saldo devedor menor melhora o balanço patrimonial
Quando o Price é a escolha certa
- Precisa de parcela menor no início para se qualificar pelo critério de renda do banco
- Orçamento fixo que exige previsibilidade nominal mês a mês
- Planeja quitar antecipadamente em poucos anos — a diferença total de juros será pequena
- Investidor disciplinado com retorno de carteira superior à taxa do financiamento
O que os bancos não mostram na proposta
A parcela anunciada raramente é o custo real. Financiamentos imobiliários incluem encargos mensais adicionais:
| Encargo | Base de cálculo | Comportamento | Valor típico |
|---|---|---|---|
| Seguro MIP (Morte e Invalidez) | % sobre saldo devedor | Cai junto com o saldo | ~0,025% a.m. |
| Seguro DFI (Danos Físicos) | % sobre valor do imóvel | Praticamente constante | ~0,010% a.m. |
| Taxa de administração | Valor fixo R$/mês | Constante | ~R$ 20–30/mês |
Esses três itens podem adicionar R$ 200 a R$ 600 por mês à parcela base, dependendo do valor financiado e do banco. Compare sempre pelo CET (Custo Efetivo Total), não apenas pela taxa de juros nominal. O Banco Central define o CET como o custo anual total do crédito, incluindo juros, tarifas e encargos — e a lei exige que os bancos o informem antes da assinatura do contrato. Saiba mais no site do Banco Central.
SAC e Price no financiamento de veículos
A matemática é a mesma, mas o cenário prático tem diferenças importantes.
A maioria dos financiamentos de veículos no Brasil usa o CDC (Crédito Direto ao Consumidor), que na prática opera no sistema Price — parcelas fixas. As taxas são muito mais altas: enquanto imóveis ficam entre 9% e 14% ao ano, veículos financiados costumam ter taxas entre 18% e 36% ao ano, o que amplifica ainda mais o custo total.
Risco de posição submersa: no Price, o saldo devedor cai lentamente nos primeiros meses. No veículo, o bem deprecia rapidamente. Nos primeiros 12 a 18 meses de um financiamento pelo Price, o saldo que você ainda deve pode ser maior do que o valor de mercado do carro. Se precisar vender, você vende por menos do que ainda deve. O SAC reduz esse risco porque amortiza mais rápido desde o início.
Por que os bancos oferecem taxas diferentes para SAC e Price
Para o mesmo cliente e mesmo imóvel, o banco geralmente cobra taxas distintas para cada sistema. No SAC o saldo cai mais rápido — menor exposição ao risco de inadimplência prolongada. No Price o banco recebe mais juros no longo prazo, mas fica mais exposto se o contrato for interrompido cedo. Para compensar essa assimetria, as taxas refletem o perfil de risco de cada sistema.
Na prática, é comum ver algo como 9,29% a.a. no SAC e 9,89% a.a. no Price para o mesmo contrato. Isso significa que a comparação correta nunca é feita com a mesma taxa nos dois sistemas — você precisa simular com as taxas reais de cada proposta recebida.
Perguntas frequentes
Posso mudar de sistema após contratar?
Não diretamente. O sistema de amortização é fixo após a assinatura do contrato. A única exceção é a portabilidade de crédito para outro banco, onde é possível negociar um novo contrato com sistema diferente — mas há custos e burocracia envolvidos.
O SAC com taxa maior pode custar mais que o Price com taxa menor?
Sim. Se o banco oferecer SAC a 11% a.a. e Price a 9% a.a., o Price pode sair mais barato no total dependendo do prazo. É por isso que a comparação nunca deve ser feita só pelo sistema — simule sempre com as taxas reais de cada proposta.
Como usar o FGTS para amortizar?
Tanto no SAC quanto no Price, ao usar saldo do FGTS para amortização extraordinária, você tem direito a escolher entre duas opções definidas pelo Conselho Curador do FGTS: reduzir o valor das parcelas mantendo o prazo, ou reduzir o prazo mantendo o valor da parcela. Essa mecânica é padronizada para ambos os sistemas dentro do SFH — não depende de negociação diferenciada com o banco.
O uso do FGTS como entrada muda o cálculo?
O FGTS na entrada reduz o valor financiado, o que beneficia mais o SAC: a amortização constante é calculada sobre um valor menor desde a primeira parcela. Para amortizações extraordinárias ao longo do contrato, as opções acima se aplicam igualmente aos dois sistemas.
SAC e Price se aplicam ao Minha Casa Minha Vida?
O MCMV tem características específicas de subsídio e atualização do saldo, mas a base de amortização segue os mesmos princípios. Para faixas de renda mais altas dentro do programa, os dois sistemas estão disponíveis. Para as faixas subsidiadas, verifique as condições específicas com a Caixa Econômica Federal.
Bancos públicos e privados oferecem os dois sistemas?
Sim. Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú, Santander — todos oferecem SAC e Price para financiamentos imobiliários. Para veículos, o Price (CDC) domina o mercado e o SAC raramente é oferecido como opção padrão pelas financeiras.
Como decidir: três perguntas diretas
- A primeira parcela do SAC cabe no seu orçamento? Se comprometer mais de 30% da renda familiar, o Price pode ser o caminho para se qualificar. Se caber, o SAC é matematicamente superior para contratos de longo prazo.
- Você vai ficar com o financiamento até o fim? Quanto mais longo o prazo real, maior a diferença de juros a favor do SAC. Se planeja quitar em 5 anos, a diferença é pequena.
- Quais são as taxas reais de cada proposta? Bancos cobram taxas diferentes para cada sistema. Simule com os números reais — não com a mesma taxa para os dois.
Simule com os dados reais da sua proposta
Os exemplos neste guia usam taxas iguais para comparação conceitual. Na prática, cada proposta bancária vem com taxas diferentes para SAC e Price, além de seguros e taxas administrativas que mudam o custo real mês a mês.
A Planilha das Tabelas SAC e Price foi construída para isso: você insere os dados reais do seu contrato — duas taxas distintas, seguros MIP e DFI, taxa administrativa — e a planilha gera as tabelas completas dos dois sistemas lado a lado, com comparativo automático mostrando qual é mais vantajoso para o seu caso específico.